Pensar em moradores de favelas e periferias do Brasil produzindo e dirigindo filmes, até pouco tempo, parecia ser uma pretensão distante da realidade. No entanto, desde o início dos anos 2000, projetos de formação em audiovisual na periferia se tornaram cada vez mais comuns e o que talvez fosse inusitado há 20 anos, hoje faz parte do cotidiano de muitas comunidades: vídeos e filmes produzido pelos próprios moradores.
Exemplo recente desse processo de transformação é o filme “Cinco Vezes Favela”, que teve sua ideia original reformulada pelo cineasta Cacá Diegues. Em 1961, cinco jovens cineastas produziram um filme que reunia histórias sobre a favela. Em 2009, Diegues, um dos diretores de 1961, decidiu realizar o projeto novamente. A diferença é que ele seria dirigido e realizado por jovens cineastas moradores de espaços populares. Assim nasceu o “Cinco Vezes Favela - Agora por nós mesmos”, principal representante brasileiro na seleção oficial do Festival de Cannes em 2010.
Diversos fatores estão ligados a este processo. Entre eles, destaca-se o acesso às novas tecnologias de comunicação, como câmeras digitais e também a ampliação do acesso a computadores, seja em casa ou em lan houses. Estas últimas, presentes em uma quantidade que chama a atenção de todo aquele que conhece uma favela, sobretudo, nos grandes centros urbanos.
A produção do "Cinco Vezes Favela – Agora por nós mesmos” se deu em parceria com cinco instituições do Rio de Janeiro – AfroReggae, Cufa, Nós do Morro, Observatório de Favelas e Cinemaneiro, além da produtora Luz Mágica. É ainda uma exceção esse tipo de parceria, mas são diversos os projetos autônomos voltados para formação, produção e exibição espalhados pelos espaços populares. Apenas para ilustrar, se tomarmos a Baixada Fluminense, região metropolitana do Rio de Janeiro, não faltarão exemplos. É o caso Mate com Angu que existe desde 2002, na cidade de Duque de Caxias. O projeto surgiu com exibições de vídeo e hoje o Mate tem em seu currículo vários filmes produzidos por moradores que integram o coletivo. Há ainda o Cineclube Buraco do Getúlio e a Escola Livre de Cinema, em Nova Iguaçu, além do Cine Guandu, em Japeri.
Para dar conta da divulgação e exibição de uma produção que se amplia cada vez mais, temos visto um número crescente de festivais de vídeos voltados para esse campo. Podemos citar o Iguacine, Festival de Cinema de Nova Iguaçu, que teve sua terceira edição este ano, e diversos outros, como o Festival de Cinema de Várzea, em São Paulo, o Festival Cine Favela de Curta Metragem realizado no Rio e em São Paulo, o Cine Cufa e a própria produção e exibição em sites como o Viva Favela.
A aproximação com as novas mídias é uma pista importante para compreender o jovem como sujeito ativo em sua comunidade e aproveitar seu potencial questionador para uma efetiva transformação social. São os moradores produzindo e divulgando suas impressões e visões sobre o espaço em que vivem. Um olhar de dentro para fora, mostrando que nesses locais temos beleza, criatividade e solidariedade de sobra. Uma câmera na mão e isto se torna visível para todos.
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