
“Dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de um futuro limpo, para todos os brasileiros”.
As frases acima fazem parte do Manifesto da Antropofagia Periférica, texto do escritor e poeta Sérgio Vaz. Ele é criador da Cooperativa de Poetas da Periferia (Cooperifa). A Cooperifa é conhecida em todo o país por seus saraus literários que acontecem desde 2001 na periferia de São Paulo. Nos saraus, taxistas, empregadas domésticas, vigilantes, donas-de-casa, rappers. Trabalhadores, moradores da periferia, que nas quartas-feiras se tornam artistas.
A Cooperifa é apenas um exemplo da riqueza cultural das diversas periferias do Brasil. Seja nos morros cariocas, nas quebradas de São Paulo, nas favelas de Recife ou nas cidades satélites de Brasília a periferia tem produzido como nunca, questionando as desigualdades e exigindo seu lugar.
Mas essas manifestações não são unanimidade. Por mais surpreendente que possa parecer, em tempos de internet, muitas pessoas ainda as desconhecem. Além disso, alguns setores da sociedade insistem em alimentar um certo desprezo ou preconceito em relação àquilo que vem das comunidades populares. Não é raro, por exemplo, que ainda vejam o funk como uma manifestação ligada a grupos criminosos ou mesmo que o grafite seja confundido com pichação e depredação do espaço público.
Na última semana, esse debate ressurgiu com força, motivado por uma coluna da jornalista Barbara Gancia, publicada pela Folha de São Paulo em 2007. O texto de Barbara, apesar de antigo, foi colocado no Twitter, a popular rede virtual de relacionamento. Foi o suficiente para levantar a discussão. O pouco conhecimento da jornalista acerca da cultura da periferia, que ela chama de “cultura de bacilos” e “lixo musical”, provocou reações acaloradas por parte de diversos usuários, inclusive outros jornalistas e alguns rappers.
Parece que visões como a de Barbara estão mesmo superadas. Considerar o rap como lixo musical pode até revelar um certo preconceito, mas, mais grave, demonstra falta de informação e uma completa ignorância acerca da cultura contemporânea e dos debates sobre o tema. Preocupante é ver que este tipo de opinião ainda tem lugar em nossos jornais. Mas o texto é antigo. É difícil saber se hoje ele seria publicado.
No entanto, a discussão que movimentou o Twitter mostrou que o tema é atual. Ainda que visões tão limitadas sejam cada vez mais raras, a cultura da periferia continua conquistando seu espaço à custa de muita luta. Temos o exemplo do Rio de Janeiro, que até pouco tempo proibia a realização de bailes funk, por conta de uma associação infundada das festas ao crime organizado. Além disso, a arte dos rappers, MCs, b.boys, poetas, escritores e os mais diversos artistas das quebradas é a arte que convive com a histórica ausência de políticas públicas e a escassez de equipamentos culturais, tão comum nas periferias brasileiras.
Por trás dos versos cantados nas favelas do país está a superação do preconceito, mas também das desigualdades urbanas e da violência. Reconhecer o valor da cultura da periferia e seu protagonismo no processo de transformação da realidade é fundamental para a construção de uma sociedade mais justa – não só para os moradores de espaços populares, mas para todos os cidadãos. Afinal, “a arte que liberta não pode vir da mão que escraviza”, como diria Sergio Vaz.
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